Manuel A. Barros - Entrevista

Manuel A. Barros - Entrevista

Por Luisa Santos - InterMetal

“Portugal tem de criar condições para atrair trabalhadores qualificados, o futuro da indústria metalomecânica depende disso”

Com mais de seis décadas de história, o fabricante de máquinas de curvar tubo AMOB mantém o caráter familiar e conhece agora uma terceira geração de liderança. A InterMetal conversou com Manuel António Barros, neto do fundador, que aponta a flexibilidade da gestão familiar e a versatilidade dos equipamentos como fatores decisivos para o sucesso da AMOB. Crente na capacidade técnica setor, que segundo diz, é superior à de “99% dos países que têm indústria metalomecânica”, deixa um alerta: sem pessoas não há indústria e Portugal tem de acelerar o passo se quiser reter e atrair trabalhadores qualificados, tão necessários neste setor.

O Manuel tem vindo a assumir um papel preponderante na AMOB. Está para breve a passagem de testemunho do seu pai para si?

Esta passagem de testemunho, como diz, é um processo natural, que acabará por acontecer dentro de dois ou três anos. Eu sempre tive uma ligação muito grande à AMOB. Ao longo dos anos, passei muito tempo na empresa e fui, naturalmente, tendo noção do trabalho realizado em todas as áreas. Desde o início de 2019 que estou cá a tempo inteiro e acompanho o dia a dia de todos os departamentos, de forma transversal, do comercial à produção, passando pelo projeto. Estou, aliás, muito envolvido no desenvolvimento de novos produtos. Neste processo, os colaboradores da AMOB têm tido um papel fundamental, ao passarem-me os seus conhecimentos nas diversas áreas da empresa.

Esta alteração reflete-se, de alguma forma, no funcionamento da empresa e na forma como se apresenta ao mercado?

Eu diria que não há alterações no funcionamento da empresa, mas há na forma como ela se apresenta ao mundo, com uma comunicação mais consistente, clara e assertiva acerca da nossa atividade e do que temos para oferecer ao mercado. Desde que eu e a minha irmã começámos a assumir mais responsabilidades na AMOB temos tido a preocupação de tornar a marca mais conhecida e apetecível. Fizemos um rebranding de toda a imagem da empresa, incluindo o logotipo e website, e apostámos muito na comunicação externa.

De facto, é notória a vossa aposta numa maior presença digital…

Hoje, a presença digital é fundamental, principalmente porque permite-nos chegar a clientes que estão geograficamente mais afastados. É, sem dúvida, onde estamos a apostar mais, com o objetivo de mostrar ao mundo quem é a AMOB e que soluções oferece. E a verdade é que já é uma aposta ganha.

Mantem a intenção de transformar cada cliente num amigo, como dizia o seu avô, António Barros, fundador da empresa?

Mantenho! Antes de mais porque os clientes são quem nos alimenta, dependemos deles para continuar de portas abertas. Mas também porque eles nos dão algo muito valioso: o feedback acerca do funcionamento das máquinas, de que precisamos para melhorar os nossos produtos.

No fundo, se tivermos essa boa relação, os nossos clientes podem funcionar quase como mais um elemento do nosso departamento de I&D. Isto permite-nos a nós melhorar o produto e permite ao cliente ter um produto melhor. É, sem dúvida, uma relação ‘win-win’, de mútuo benefício.

Há quatro anos, a AMOB faturava 20 milhões de euros, a maioria nos mercados externos. Qual é o vosso volume de negócios atual e que percentagem corresponde a exportações?

Se tivermos em conta apenas a AMOB Portugal, continuamos com um volume de negócios na casa dos 20 milhões de euros. Mas, nos últimos quatro anos, abrimos várias subsidiárias em diversos pontos do mundo, que faturam diretamente. Se considerássemos também a faturação destas, estaríamos neste momento nos 25 milhões de euros, com uma percentagem de exportações a rondar os 90%. Dessa percentagem, 70% corresponde a exportações intracomunitárias.

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Quais são os mercados com maior peso na vossa faturação?

Felizmente, estamos implementados em mercados geograficamente muito diversificados. Não há nenhum mercado no mundo que represente mais do que 10% da nossa faturação. Na Europa, temos clientes em praticamente todos os países, desde Espanha, à Alemanha, Reino Unido, Itália, todos com valores muito equilibrados e muito próximos uns dos outros.

E no que respeita aos setores?

Felizmente, as máquinas de curvar tubo aplicam-se a todo o tipo de setores (de A a Z, como diz o meu pai). Tanto vendemos máquinas a quem faz mobiliário metálico como a quem faz navios de 300 metros de comprimento. Temos máquinas que curvam tubos de 10 milímetros de diâmetro e máquinas que curvam tubos do tamanho das máquinas que curvam os tubos de 10 milímetros. Portanto, também neste aspeto, não temos um setor cliente dominante, que represente mais de 15-20% da nossa faturação.

Temos visto alguns concorrentes internacionais muito dependentes do setor automóvel que agora, com a transição para os veículos elétricos, sem tubagens de escape, estão a ter muitas dificuldades em entrar noutros setores porque os seus equipamentos foram desenvolvidos para aquela área específica. A AMOB, como nunca teve um setor dominante, foi naturalmente desenvolvendo equipamentos muito flexíveis.

Exatamente por isso, se eu tivesse de destacar um setor cliente, eu diria que é o dos prestadores de serviços. Estas empresas, que têm clientes em várias áreas, precisam de um equipamento versátil, que tanto se adapta a curvar escapes, como tubos estruturais para máquinas de ginásio, mobiliário, entre uma grande quantidade de outras aplicações.

Mas o automóvel continua a ser indicado como um mercado em crescimento, no que respeita ao consumo de tubo…

Sim, nos veículos elétricos continua a haver muitos tubos curvados, mas na maioria estamos a falar de aplicações diferentes. Claro que ainda existem aplicações de tubo curvado em sistemas para transporte hidráulico para travões, alguns chassis continuam a ser feitos com tubos e perfis curvados, mas uma das principais aplicações, para sistemas de escape – compostos por peças com múltiplas curvas, algumas delas bastante complexas -, irá desaparecer com a eletrificação. Em compensação, há uma grande procura por tubos mais pequenos, usados nos sistemas de arrefecimento das baterias.

De qualquer forma, nós acreditamos que o futuro não passará necessariamente pelos elétricos, mas sim por outras tecnologias como a do hidrogénio e do hidrogénio verde, que não precisam de baterias. Em qualquer dos casos, os fabricantes de máquinas têm de se adaptar a essa nova realidade.

Em termos gerais, que balanço faz do ano transato?

Foi um ano em que voltámos a bater recordes de faturação e de produtividade, o que nos deixa bastante satisfeitos. Acredito também que foi o último ano em que ainda sentimos algumas dificuldades decorrentes da pandemia.

E para este ano, quais são as suas previsões?

As nossas perspetivas para 2024 são boas. Como disse, este será o primeiro ano ‘limpo’, em que os efeitos da pandemia nos negócios já não se vão sentir. Estou satisfeito por termos virado essa página e por podermos encarar os próximos anos, certamente com novos desafios, mas sem essa carga. É verdade que este ano está a arrancar de forma um pouco atípica, mas acho que é uma questão de tempo até as empresas voltarem a ganhar a confiança necessária.

Ainda assim, no início de janeiro tínhamos já uma carteira de encomendas que nos permite satisfazer mais de metade do ano, temos um funil de vendas muito completo e, portanto, temos a perspetiva de fechar o ano, a nível de possibilidade de produção, durante o segundo trimestre.

Lançaram novos modelos em 2023? Estão previstos novos lançamentos este ano?

Nós todos os anos lançamos novos modelos. E não estou a falar de adaptações de máquinas antigas, mas sim de equipamentos realmente novos. Achamos que é fundamental acompanharmos permanentemente a evolução das indústrias e dos setores para os quais trabalhamos, e isso implica o lançamento constante de novas soluções.

Temos alguns concorrentes que têm mais resistência neste aspeto e são precisamente esses que estão a sentir algumas dificuldades, por exemplo, com esta transição no setor automóvel. Para lhe dar um exemplo, há quem insista em usar máquinas que foram desenhadas para tubos de escape em aplicações de ar condicionado, o que não faz grande sentido.

Na AMOB, muito graças à gestão familiar da empresa, conseguimos ter a flexibilidade necessária para que a tomada de decisão de lançamento de novos modelos possa acontecer de forma célere e sem burocracias.

Diria que a gestão familiar é um dos fatores que contribui para o sucesso da AMOB?

Sem dúvida. Ainda que a AMOB tenha uma estrutura cada vez mais profissional, continua a ser uma empresa de gestão familiar, o que, na minha opinião, tem a grande vantagem de nos permitir tomar decisões mais facilmente, baseadas não necessariamente apenas em números, mas também no instinto, e isto acelera bastante o processo de desenvolvimento. Quando alguém nos traz uma ideia que se encaixa na nossa visão, somos os primeiros a querer testá-la e da forma mais rápida possível.

De entre as tecnologias inovadoras que integram as vossas máquinas, quais gostaria de destacar?

O meu principal destaque vai para os avanços que temos feito no software que controla as nossas máquinas. Como em todo o processo de fabrico, também no software somos completamente verticais, todo o software é desenvolvido internamente por um departamento que, neste momento, é 300% maior do que era há cinco anos, quando entrei na empresa a tempo inteiro. E o nosso objetivo é que continue a crescer. Graças a esta aposta, temos hoje um software mais rápido, mais intuitivo, mais capaz, e que oferece mais soluções aos nossos clientes.

A eficiência energética dos equipamentos é uma preocupação da AMOB?

Sem dúvida nenhuma. Estamos atentos às tendências mundiais e uma das palavras de ordem da atualidade é a eficiência, energética e não só. Na AMOB temos feito vários esforços nesse sentido. Por exemplo, o nosso software foi desenhado para tornar os nossos equipamentos energeticamente eficientes, permitindo, por exemplo que as máquinas permaneçam em modo de descanso quando não estão a ser utilizados. Além disso, nas nossas máquinas os componentes chave como os motores e drives são cada vez mais eficientes.

Que outras medidas integram a vossa política de sustentabilidade?

Estamos a investir para que, em 2025, mais de metade da energia que gastamos seja proveniente de fontes renováveis e, para tal, vamos avançar brevemente com a instalação de uma grande rede de painéis fotovoltaicos. Além disso, na produção, temos a preocupação de ir substituindo equipamentos mais antigos e pouco eficientes por outros mais recentes, que nos tragam a mesma vantagem que estamos a oferecer aos nossos clientes.

A AMOB recondiciona máquinas usadas?

Sim, mas temos muito presente que, por vezes, é difícil recondicionar uma máquina muito antiga com tecnologia 100% atual. Nesses casos mais extremos, damos um forte incentivo ao nosso cliente para abater o equipamento antigo e adquirir uma máquina nova. Nestes casos, desmantelamos e reciclamos 80 a 90% dos componentes da máquina antiga – as nossas máquinas são quase inteiramente feitas de metal e um aspeto positivo desde material é que é 100% reciclável.

No que se refere ao vosso processo de fabrico, investiram ou planeiam investir em ferramentas de digitalização ou automatização de processos?

Sempre. Aliás, o meu sonho é, no futuro, conseguir ter parte da fábrica a trabalhar enquanto todos dormimos. E, simultaneamente, ter ferramentas digitais que nos permitam perceber se a fábrica está a trabalhar bem, se está a ser eficiente, quanto é que está a produzir. Neste sentido, temos vindo a investir bastante em ferramentas como o software que instalámos há pouco para controlar a produtividade de todos os nossos equipamentos, e também na automatização de processos, com soluções que permitem manter as máquinas a funcionar sem operador. Estes dois aspetos, da digitalização e da automatização, são fundamentais para que possamos continuar a crescer (e a ser competitivos) e estão de facto interligados: não nos vale de muito ter apenas os processos automatizados se não conseguirmos medi-los. São áreas em que vamos, certamente, continuar a apostar.

No meio de toda a tecnologia disponível, o fator humano continua a ter um papel central na indústria, com muitas empresas a relatarem falta de mão de obra qualificada. Também é o vosso caso?
Sim, as pessoas são o fator central de qualquer empresa, por muito automatizada e digitalizada que esta esteja. A tendência é de passarmos a deixar que sejam as máquinas a fazer os processos mais repetitivos, de forma a libertarmos as pessoas para tarefas mais interessantes, que exijam alguma cognição e que tenham maior valor acrescentado.

A falta de pessoal é um problema que afeta bastante o nosso setor, pelo qual a AMOB também passa, e é uma das razões para termos investido tanto em automatização. Felizmente, esta falta tem estado a ser colmatada por alguma imigração muito qualificada que nos tem chegado, principalmente de países como o Brasil, a Índia e o Paquistão. Posso dizer-lhe que, neste momento, temos dez técnicos brasileiros a trabalhar na AMOB, todos eles muito bem preparados e a executarem tarefas diferenciadas.

Se quisermos fazer crescer as nossas empresas, vamos ter de ser capazes de atrair esta mão de obra qualificada. Para tal, Portugal tem de ser se tornar atrativo, quer em termos fiscais quer nas condições de vida que dá às pessoas.

Além deste, que outros desafios terá a indústria metalomecânica portuguesa de enfrentar nos próximos anos?

Acho que a mão de obra é mesmo o principal desafio. Se tivermos pessoas competentes, capazes, motivadas e felizes, facilmente enfrentamos qualquer desafio. Agora, é preciso que as pessoas possam ser bem renumeradas e que não vejam metade do seu rendimento a ser absorvido por impostos. Era importante que elas pudessem levar mais dinheiro para casa e acho que vamos ter dificuldade em encontrar trabalhadores qualificados se assim não for. Não nos podemos esquecer que concorremos com países onde os salários são muito superiores e que também têm a mesma falta de gente.

Para terminar, como vê o futuro desta indústria?

Vejo um futuro muito risonho… se conseguirmos reter o talento em Portugal. Acho que a indústria metalomecânica portuguesa é muito resiliente. Não tenho dúvidas de que somos tecnicamente melhores do que 99% dos países que têm indústria metalomecânica. Agora, precisamos de dar às pessoas as condições necessárias para que possam ter vidas dignas. Temos de criar essas condições. Se o fizermos, temos todos os ingredientes necessários para crescer.

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